30 maio, 2010

Depois do silêncio

Parti.
No meio de todo este silêncio.
Encontrei uma nova janela que dá para um novo mundo.
É olhar para esse novo mundo que fumo os primeiros cigarros do dia e os últimos da noite.
Já não vejo coelhos ao amanhecer.
Acordam-me os corvos de voz rouca e profunda.
Já não oiço o mar dentro de casa.
Cheiro o verde e o orvalho de forma confusa.

Tantas mudanças.
Até pensei deixar de fumar.
Até pensei deixar morrer as letras antes de serem palavras.
Até pensei que tinha trazido comigo pouca coisa na bagagem.

Trouxe dias de sol, para afastar o cinzento dos pensamentos.
Trouxe memórias de carinhos, para afagar o peito quando está apertado.
Trouxe carinhos antigos, para afastar o frio das paredes que não me conheciam.

Nas mudanças. Nos caminhos novos. Nas pessoas diferentes. Nos passos inseguros.
Encontrei o caminho de volta do silêncio. Ou foi só o fumo a pedir-me palavras.

Encontro sentimentos ainda não experimentados.
Tenho vontade de arriscar. Mais uma vez.

Quebro hoje o silêncio. O jejum de palavras. A falta de fumo.

19 novembro, 2009

As histórias no amor

Era uma vez...

Uma menina perdida no meio da multidão.

Uma senhora idosa cheia de amargura.

Uma moça bonita a retocar o baton na casa de banho do café.

Um homem de meia-idade a olhar o mar.

Um rapaz de mp3 no autocarro.

Um velho de jornal debaixo do braço.

A menina perdida cresceu, tornou-se mulher e leva pela mão uma criança de caracóis louros.

A senhora idosa está sentada num banco de jardim a fazer malha e a conversar sorridente.

O homem de meia-idade continua a olhar o mar, mas agora impaciente à espera que o telefone toque.

O rapaz continua a ouvir música, já no seu destino e sorri.

A moça bonita já não usa baton e agarra o telefone.

O velho lê o jornal e olha para a relva.

Todos se cruzaram em algum momento. Alguns ficaram juntos.

Mas há um telefone que não toca.

Mas há um telefone que continua na mão.

Gostava que a história acabasse num amanhã, com um final, também, feliz.

16 outubro, 2009

Cinzeiro do obsessivo



Beatas sempre arrumadas da mesma maneira.

Não resisti a desarruma-las, mais tarde reparei que tinham voltado à disposição inicial.

O dono obsessivo arruma papéis por tamanhos e cores, sai a horas certas para comprar cigarros, e por aí adiante...

É tão desorganizado nos pensamentos, que nem dá para acreditar...

Mas acredito nas suas colecções de porcarias inúteis (até para ele), na disposição sempre igual da sua casa, na sua incapacidade de as coisas serem de outra maneira...

Fuma obsessivamente todos os cigarros até ao fim, cria sempre o mesmo padrão de beatas. Será que os seus dias poderão ser “assaltados” por alguma mudança?

14 outubro, 2009

Exaltação daquelas mãos

Duas mãos.

Aquelas que se misturam em mim.

Que em noites de frio modelaram a calor e sentimento o meu corpo.

Mãos de mais dedos do que as comuns.

Mãos que criaram universos dentro do mundo, que dão novos sentidos ao que conhecemos.

Mãos com trabalhos, definidas e crescidas a agarrar, a esculpir, a desenhar, a ligar, a criar encontros.

Maltratadas e ressequidas em dias de alheamento.

Mão delicadas em dias chuvosos debaixo dum cobertor de ternura.

Mãos que são carinho sempre que as encontro... quando não as sinto, saudades.

Mãos que apesar de conhecidas são sempre novas.

Mãos de veludo.

Mãos que lembram árvore secular.

Mãos que prendem e me dão liberdade.

Mãos que nunca dormem.

Mãos que me arrepiam.

Mãos que sabem a primeira vez.

Mãos que nunca me vão abandonar.

13 outubro, 2009

Transformação Outonal

Hoje começou o meu Outono.

Senti aquele frio que me lembra mantinhas de lã, a chávena de chá e as preguiçosas tardes com carinhos.

A caminho de casa senti as folhas secas, que já se amontoam no chão, a estalarem debaixo dos pés.

O cheiro das castanhas a assar no carrinho-barco. O mesmo senhor velho de mãos enegrecidas pelo fumo e pelas quentes e boas.

Volta a luz coada e doce ao entardecer.

As cores quentes, a chegada do frio e da chuva alegram-me os sentidos.

Como uma árvore deixo cair as minhas folhas e fico a contemplar a natureza das coisas. Largo sementes a germinar em novos caminhos.

Abro os braços como ramos e tremo de frio.

Enterro os pés na terra e absorvo a energia do sol.

Sonho-me árvore, de tronco largo, que quase toca as nuvens como se pudesse ser um desses seres fantásticos.

Começa a anoitecer. A luz a baixar no horizonte e a humidade, fazem-me viajar...

Os pés desenterram-se.

Os braços encurtam.

Oiço um cântico que vem de longe. Todas as sementes deitadas à terra chamam por mim.

Toda a energia absorvida transforma-se num novo desejo.

Partir.

Uma dor cresce. Uma dor crava-se nas minhas costas.

Dispo-me de roupa. Tento ver que se passa na minha parte de trás.

Uma pena!?!

Estou a transformar-me?

Pássaro ou anjo?

Só voar?

Proteger tudo ao meu redor?

Combater?

Partir, quero partir.

09 outubro, 2009

Cinzeiro partilhado...



Assim encerramos uma noite dura.
De conversas muito estranhas aos nossos verdadeiros sentimentos e desejos.
Houve olhos como punhais e palavras como armas de fogo...
Somos dois muito doridos e perdidos... mas com um pequeno pedido tudo mudou!
A nossa verdadeira ternura veio ao de cima como um peixe a saltar para fora de água.
Acabou por amanhecer e alegria, ternura... amor, verdadeiro amor.

06 outubro, 2009

Cinzeiros. O que contam?

Reparo todos os dias nos cinzeiros alheios.

Por vezes é o seu formato, as beatas ou as outras coisas que lá deixam, desperta-me a curiosidade. Pequenas histórias vêm-me ao pensamento, noutras as imagens falam por si...

Para começar apresento o meu cinzeiro. O que me acompanha nas noites de insónia, nas letras que vou lendo e escrevendo e muitas vezes nas horas de ócio.


Não tem uma história especial.

Faz parte das minhas memórias de infância, fazia parte da sala de estar de casa de meus pais, pousado numa mesa de vidro.

Descobri-o numa das “explorações (quase) arqueológicas” aos armários da casa (agora, só) da minha mãe.

Tornou-se um amigo por ser tão kitsch.

04 outubro, 2009

Na sala de espera

Muita gente.

Rostos carregados.

Bocas rectas.

O ruído de fundo da televisão.

Conversas em surdina.

Suspiros.

Sinto que gemo.

Diante de mim um corredor interminável, luz branca e fria.

Paredes brancas manchadas.

O que espero, não é um sorriso.

(Saio e acendo um cigarro!)

Um alívio.

O que posso esperar...vagueia-me no pensamento.

Oiço sinos.

Cheira-me a flores brancas e amarelas.

O gemido cresce.

O ânimo decresce.


Hoje, não pode ser!!!

Sei que será um dia...

(e de certeza, um dia de nevoeiro!)

01 outubro, 2009

Uma Insónia

O relógio. 3h10m.

Entre os cigarros e o caderno.


A chávena de chá. 3h45m.

Cigarros e canetas.


As bolachas. 4h30m.

Os cigarros e as almofadas.


Leite quente. 5h01m.

Cigarros com olheiras.


Uma luz. 6h30m.

Mais cigarros sem sono.


O despertador. 7h30m.

Cigarros e desespero.


Acabaram os cigarros às 7h55m.

A tabacaria abre às 8h00m.


O café. 8h30m.

O primeiro cigarro do “dia”.

As olheiras de muitos dias.

Um jornal que fala de doenças do sono.


Bocejo. 8h55.

Cigarros com muito sono.

29 setembro, 2009

A Pérola

Cresceu-me uma pérola no coração

Al Berto


A noite cai, no céu acendem-se as estrelas. Pontinhos pequenos e brilhantes que inspiraram histórias desde o princípio dos tempos.

Gosto de me deixar cair no chão e ficar a olhar o firmamento.

O cheiro da terra debaixo de mim, à minha frente todas as previsões do mundo.

Quando as noites estão vazias de nuvens prevejo futuros sorridentes para todos.

Acendo um cigarro.

Vejo o fumo a subir, dançando com as estrelas até escorregarem para os sonhos.

Numa noite destas sonhei que uma estrela tinha caído do céu pousando suavemente na minha mão fria.

Fechei a minha mão...

A luz foi desaparecendo entre os meus dedos. Arrefecendo.

Abri-a.

Surpresa.

Uma pérola.

Sempre pensei que as pérolas cresciam só dentro das ostras...

...mas também guardo uma no coração!